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terça-feira, 9 de abril de 2013

Relógio

Você olha o relógio e percebe que já deveria ter saído de casa. Sai apressada pensando que vai perder o ônibus. Desce as escadas. E parado na frente da porta, interrompendo a saída, está o teu vizinho do primeiro andar, com uns 55-60 anos, deficiente físico. Você cumprimenta e acha uma forma de passar. Ele pede ajuda. Você pensa no horário. Estava atrasada, lembra? Olha para ele, tão frágil, com suas muletas, tentando subir na cadeira de rodas motorizada. "Querida, pode me ajudar? Tira a capa da cadeira para mim?". Você ajuda e pergunta se ele precisa de mais alguma coisa. Esquece o atraso, os supostos problemas e pensa em como a vida nos prega peças. "Não precisa de mais nada, meu anjo. Já foi uma baita ajuda". Você se despede. Lembra do relógio e volta a correr. Perde o ônibus, mas isso já não importa mais.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A camiseta


Era um estranho, mas vestia algo bem familiar. Era um estranho, mas possivelmente tinha passado pela mesma experiência. Era um estranho, mas com certeza um sonhador. A camiseta que ele usava não era exatamente igual a minha, mas quase, não fosse a barra cor de laranja nas mangas e na gola. O laranja. Já disse que minha memória tem cor? É cor de laranja.
Não conseguia desviar os olhos da camiseta. Não conseguia desviar os olhos dele. Consegui, apenas por alguns segundos, reviver aqueles bons momentos.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Somos todos culpados

"Alguém tem que ser o culpado", diria minha mãe. E começa o jogo de especulações, empurra para lá e para cá. Culpa-se quem está mais próximo, àqueles que aparecem em ênfase num primeiro momento. Peguemos como exemplo o incêndio na boate de Santa Maria. As pessoas julgam e condenam o músico que usou o tal sinalizador, os seguranças, os donos da boate. Cada um deles pelos motivos que todos nós já conhecemos. Depois começa-se a falar nos bombeiros, nos fiscais, na prefeitura, no poder público. Culpa-se o responsável disso ou daquilo. Você já parou para pensar que também é culpado? Sim, se essa bola de neve de culpados não pára, chegamos a nós, cidadãos. Você se considera um cidadão? Se sim, também é culpado. É culpado porque elege os governantes que dão toda a sequência aos milhares de profissionais que de uma forma ou de outra erraram ou foram negligentes, é culpado porque não cobra nada do tal poder público, não corre atrás dos direitos e, consequentemente não cumpre seus deveres. É culpado porque também negligencia, fecha os olhos e prefere não ver. É culpado porque aplaude coisas ilegais. Não? Então quer dizer que você pagou pelas músicas que tocam no seu mp3, que nunca recebeu troco a mais e ficou quieto? Talvez você me diga que uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas tem. Eu já usei a expressão "não dá nada". Não faço cobranças ao poder público, não fiscalizo nossos representantes, não lembro em quais deputados eu votei na última eleição. Já julguei as pessoas por elas errarem, por não serem honestas, por não fazerem o seu trabalho. Mas eu não fui 100% honesta sempre. As proporções, claro, são diferentes. Mas lá no fim do fio da meada eu sei que eu e você temos culpa. E eu me sinto um pouco culpada por querer justiça depois e não antes.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Queridas amigas (?),


Antes de mais nada, que falta eu sinto de vocês. Das nossas tardes jogando conversa fora.
Resolvi escrever pra vocês depois de ver um comentário em uma foto nossa. Algo como "bons tempos que não voltam mais". Sabe, até pouco tempo eu pensava assim. Lembrava daquele tempo como algo que não pode voltar mais. Mas hoje, especialmente hoje, eu comecei a pensar diferente.
Antes, eu lembrava da nossa amizade com muito carinho, por um lado, mas com um pouco de tristeza por outro. Pensava: como algo que era tão bacana pode "acabar" de uma hora para outra?
Depois repensei. Comecei a lembrar da nossa amizade apenas com carinho. E passei a pensar: as pessoas mudam, a vida muda e por consequência a amizade muda também. Nós quatro passamos por experiências diferentes nesses últimos anos e, não sei se vocês lembram ou se sentiram assim, mas a última vez que nos reunimos não foi a mesma coisa de antes. Não tinha o mesmo entrosamento.
O momento não tá fácil. E aí, entre tantas reflexões, eu vejo que o culpado desse nosso afastamento não é o tempo, ou a vida. Somos nós mesmas. Se quisessemos, de verdade, poderíamos continuar nos encontrando quase como antes. É fácil reclamar que alguém sumiu ou que não se tem mais amigos como antes e não fazer nada para mudar.
Claro que com cada uma de vocês é diferente. Claro que não vai ser igual, afinal tudo muda. Mas quem disse que não pode ser melhor?
Mas afinal, por que não procuramos umas as outras? Arrisco responder. Nós mudamos. Nesses quatro anos escolhemos nossos próprios caminhos, conhecemos pessoas diferentes, fizemos novos amigos e começamos a ver o mundo de outras perspectivas. O meu palpite é que temos medo que não haja mais afinidades, que não haja mais sonhos compartilhados. E, assim, de certa forma, que não sejamos mais aceitas de braços abertos.
Para descobrir isso é preciso arriscar. Arriscar a ver um rosto sério ou uma desculpa qualquer para não nos vermos mais e aí sim perceber que não há mais jeito, que o jeito é continuar lembrando de nós como algo muito bom do passado. Lembrar de vocês e contar para meus filhos como era divertido dividir segredos, sonhos e medos.

Eu topo nos dar uma segunda chance. E vocês?

Com carinho, eu.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Gasolina


Um homem, com uma garrafa pet, chega em um posto de gasolina.
- Enche, pediu ao frentista.
- Comum ou aditivada?
- Tanto faz. É para colocar fogo na casa mesmo.

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Coisas que se ouve em postos de gasolina por aqui.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Tia Nair

A senhora da janela. Eu não sei qual o seu nome, mas gosto de pensar nela como tia Nair. Há meses que eu tenho passado pela janela do quarto e ela está lá, deitada em uma cama hospitalar. Os cabelos brancos, as rugas no rosto e aquele olhar de quem tem muito a contar. Um olhar cansado, experiente e ao mesmo tempo esperançoso. Não sei se ela fica apenas na cama, ou se anda por aí. Sempre que passo e olho para dentro da janela ela me devolve o olhar. Ou melhor, sempre não. Há alguns dias ela não me olhou de volta. A cama estava vazia. "Foi dar uma volta", pensei. No outro dia a mesma coisa. E assim a imagem da cama vazia foi se repetindo. Não sei o que de fato aconteceu. Sei que não gosto de pensar que o olhar da tia Nair partiu.

domingo, 2 de dezembro de 2012

As cartas que não te enviei

Respirei fundo e decidi te escrever mais uma vez. Lembra de todas as cartas que eu prometi te enviar? Eu sei, elas nunca chegaram. E nunca chegaram por um motivo bem simples: faltou-me coragem de ir até o correio. Mas elas foram escritas, e você sabe. Uma vez eu digitalizei uma e te enviei por e-mail, lembra?

Abri a gaveta, hoje, e encontrei todas as cartas que não te enviei. Dos nossos aniversários de, de... Como eu devo chamar mesmo? Encontrei as que escrevi no dia do amigo, no teu aniversário, no natal. Eu sei, eu sei. Sei que elas foram escritas em um tempo que não volta mais. Mas de que importa? Importa que estou aqui, tantos anos depois, te escrevendo mais uma vez. Quando peguei essas velhas cartas na mão, senti tua falta. Não que eu não sinta sempre, mas foi diferente. Foi como se tudo pudesse ter sido diferente se eu as tivesse enviado.

Elas, as cartas, estão recheadas de histórias nossas, das vividas e as não vividas. E fico me perguntando se tu ainda lembras de mim. Por favor, permita-me que lhe faça um pedido, um último pedido, talvez. Não me julgues por ter sumido, por não ter enviado as cartas como prometi. Tive meus motivos.

Se receberes essa carta é porque, desta vez, eu deixei de ser covarde e fui até o correio. Talvez um dia eu te envie as cartas antigas. E talvez eu possa receber uma carta tua também.

Com amor e nostalgia,
Eu.